Realidades desnudadas. Mas sem perder a doçura.

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Antes de chegar ao Sempre um Papo com Eliane Brum, não só a visão de O Olho da Rua me acompanhava, mas uma palavra: piegas. Até formulei uma pergunta sobre como amalgamar o sentimentalismo e o detalhismo sem pender para a pieguice. Entretanto, ao ouvir e ver Eliane falar com palavras, pernas e braço (o outro se ocupava do microfone) foi possível lê-la como um desacontecimento em um acontecimento. Assim como todos nós, ao sermos apresentados e indagados a proferir as primeiras palavras, ela demonstrava timidez e receio.

Ao iniciar sua fala, suas pernas, em um primeiro momento inquietas e gangorrantes como as de uma menina, foram, com o tempo, se fixando naquele lugar, assim como as palavras que fluíam sem a interjeição pensativa “ãn” e entoavam em parágrafos. Enquanto isso, sua mão esquerda, de forma rítmica, harmonizava e pontuava a fala lenta, qual uma avó em sua melífera maneira de contar histórias aos netos. Preocupada com a atenção e o tempo de seus ouvintes, buscava os olhares por trás das fortes luzes que a atingiam no palco.

Quando contou sobre a reportagem que fez na Bolívia a respeito da doença de Chagas – na qual barbeiros (vinchucas para os bolivianos) enfestam choupanas de taipa dos camponeses na região de Narciso Campero –, Eliane se adianta na poltrona com as pernas afastadas, inclina o tronco e assume tom professoral para explicar que o enxame de hóspedes clandestinos causaram mortes por engasgamento ao se desamorcegarem sobre as pessoas adormecidas. Ao relatar essas histórias tristonhas, Eliane aparenta retornar àquele contexto, pois seus olhos, cerrados e tremeluzentes, parecem projetar aquele ambiente.

É perceptível na fala de Eliane o quanto a palavra morte pesa em seu léxico. Nascida após o falecimento precoce de uma irmã com cinco meses, desde guria a ijuiense introjetou a outridão. A solidão de ser a outra. Na infância, ela e seus irmãos cumpriam um ritual estabelecido pela mãe, visitar o túmulo da filha que morreu. Marginalizada em casa por ser a outra, a substituta, Eliane se tornou dramática e extremamente sentimental, talvez para despertar a atenção dos pais.

Questionada por alguém da plateia sobre como consegue lidar de maneira delicada com a palavra morte e seus coadjuvantes, Eliane pondera: “É preciso se desabitar e deixar ser habitado pelo outro. Cada história tem seu tempo”. Para ela, esse desabitar-se ocorreu de forma natural, afinal, desde a puerícia ela se desalojou e buscou habitar-se, talvez até para amenizar o sofrimentos dos pais, no corpo da irmã falecida.

Por ter sido marginalizada em casa, Eliane, ao iniciar a carreira de jornalista em 1988, decide dar voz aos marginalizados da sociedade e da escrita. Por identificação, ela sabe a impotência que é ser um pária familiar e social. Talvez por recordar-se da experiência que teve em 1981, quando, aos 15 anos, engravidou e decidiu ser mãe solteira, mesmo morando em uma conservadora cidadezinha gaúcha de colonização alemã e italiana, Ijuí. Todo esse contexto da vida de Eliane Brum me permite responder a pergunta que me fiz. Ela não é piegas, mas extremamente sentimentalista, e isso está intrínseco não só em sua escrita, mas em si. Eliane monta as palavras e as coloca em seu texto para ser lido qual um miniaturista a artesanar um barco e depois inseri-lo em uma garrafa de vidro.

Ao sair da sala Juvenal Dias, no Palácio das Artes, os leitores caminhavam tal qual uma procissão de pinguins até se espicharem em uma fila para os autógrafos. A maioria composta por homossexuais e mulheres, sensibilizados pela escrita melindrosa de Eliane Brum. Aqueles que estavam na dianteira continham um olhar infantil ao alcançá-la. Ansiosos e entusiasmados, cronometravam com os olhos o tempo de cada um a sua frente. Porém, eram surpreendidos por aqueles que levavam até quatro livros para serem assinados. Entre o estufamento de veias na mão direita – ao passar três páginas e rabiscar: data, cidade, palavras e rubrica – e a distensão dos lábios para as fotos, ela assumia uma profissão que convém a todo escritor no momento das dedicatórias, a de psicólogo textual (confesso que me questionei o que deve doer mais após uma noite de autógrafos, se a mão ou as bochechas).

Entre o elevar e o abaixar do olhar, ela percebeu que alguém a observa fixamente, mas segue a toada. Um professor, de nome Aurélio, dizia quantos pupilos se tornaram leitores e estavam ali presentes. Uma jovem, bastante tímida, dizia, no virar dos olhos, sobre sua admiração e o quanto gostaria de ter o dom da escrita, “quem me dera”, sonhava. Outra revelou: “Só tive coragem de criar um blog e escrever por causa dos seus textos”. Um homem de meia idade, com olhar orgulhoso, a elogiava com as mãos sobrepostas às dela como um padre a abençoar. Alguns se apresentam e Eliane se surpreende ao conhecer pessoalmente o que até então eram vozes e e-mails.

Uma dupla de amigas discutia quem iria tirar foto primeiro com a escritora. Nesse meio tempo, Eliane me descobre, ao lado do bebedouro, a olhá-la por entre braços, mochilas, livros e fotografias. Há uma barreira corrediça de fãs que obstrui o cruzamento de nossos olhares e os limitam a alguns segundos.

Leitores confessam que ela os inspira, outras pessoas, de áreas distintas, manifestam admiração por sua obra. Uma jovem acanhada, daquelas que têm sorriso de desculpa, ao ser fotografada com Eliane foi questionada: “Você também faz jornalismo?” Ao que respondeu: “Não, só ele (se referindo ao amigo). Faço arquitetura”. Ficou translúcido  como Eliane serve de bússola para estudantes de jornalismo. Seus textos norteiam um caminho literário possível aos andarilhos de canetas. Mesmo que, para alguns, ele denote pieguice.

Enfim, após mais de uma hora, é minha vez de pedir o último autógrafo da noite. Me aproximo e, antes de dizer meu nome, ela pergunta: “Já nos conhecemos?” E respondo: “Deve ser porque fiquei a noite toda ali sentado”, apontando uma cadeira paralela à dela. Eliane sorri e dedica dois livros. Ela não imaginava que eu a lia e delineava palavras no celular para perfilá-la.

Eliane Brum está além dos julgamentos rasos. Dizer que sua escrita soa piegas seria como pedir a Guimarães Rosa que desneologizasse seu léxico. Ou que Joel Silveira não fosse, no papel, a víbora que pensavam dele. Para ela, o mundo sempre será uma cidade interiorana como Ijuí, que nos julgará para se esquecer.

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