Lendo o Fliaraxá

 

Foto 01Quarta-feira, 8 de outubro, foi possível ver, em meio às inúmeras casas que preenchem os quarteirões na região central da cidade, um senhor que cochilava sentado em uma cadeira ao sol no gramado do seu quintal. Araxá é um lugar onde o tráfego de carros não é morto, mas em ponto morto. O som dos automóveis é praticamente de fundo, pois o protagonismo vem dos pássaros. Os veículos parecem não possuir acelerador, pois deslizavam pelas ruas com o ímpeto de um carrinho de picolé. Entre um carro e outro, era possível ouvir o gracejar de aves e o vento a pentear as palmeiras da Praça Governador Valadares.

No dia seguinte e a três quarteirões dali, em frente a outra praça, chamada Arthur Bernardes, uma fundação – batizada com o nome do mais expressivo artista plástico araxaense, Calmon Barreto – abrigou toda a estrutura do Festival Literário de Araxá, o Fliaraxá. Além de uma livraria que foi montada para os quatro dias do evento, o Café do Fli, dois auditórios e um núcleo de comunicação, o complexo contou com fraldário, posto médico, banheiros e hall de autógrafos. Para as crianças: pula-pula e piscina de bolinhas. Todo festival literário é uma maratona para o público, mas principalmente para a produção envolvida no evento.

Na abertura, Afonso Borges, idealizador do festival, lembrou que não há melhorias a margem da leitura. “Só será possível um mundo melhor quando tivermos mais leitores”, decretou. Um festival como o Fliaraxá deve percorrer os meandros da literatura. Desde a superfície, mergulhando do pré-sal até o sobrenatural literário. Assim como no cinema, no qual nenhum espectador inicia a experiência cinematográfica por Lars Von Trier, na leitura o leitor não deixa o abecedário diretamente para as páginas de Guimarães Rosa. Entretanto, sempre preocupa a estagnação literária dos leitores e para isso existem festivais como este.

No bate papo inaugural, Humberto Werneck e Luiz Ruffato debateram a respeito do tema. Werneck classificou o cenário como uma banheira em que há mais espuma que água. Enquanto Ruffato relatou dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – PISA. Segundo o estudo, daquilo que se lê, apenas 10% é literatura, sendo que dessa porcentagem, 75% são traduções. E metaforizou que a leitura é como culinária: ambas devem ser regidas pelo verbo experimentar. “A sociedade é feita de potenciais leitores”, complementou o autor de Eles eram muitos cavalos.

Em seguida, iniciou o recreio literário com o improviso de Rodrigo Libânio e sua flauta que conduziram o serpentear de crianças pelo pátio do Fliaraxá, qual o Flautista de Hamelin. Entretanto, ao invés de uma caverna como na fábula, o destino das crianças foi o auditório Luiz Vilela. Lá, Rúbia Mesquita, contou histórias, tendo como público do seu show futuros leitores, em sua maioria entre 4 a 10 anos, egressos de escolas locais, públicas e privadas.

O quarteirão da Rua Francelino Cardoso, que dá acesso à Cemig e à Fundação Cultural Calmon Barreto, por questão de segurança, teve o trânsito impedido e limitado aos ônibus escolares que levaram os alunos ao festival.

Tranças, laços, fitas, xuquinhas e bonés embalaram-se ao ritmo das brincadeiras de Rúbia. As crianças dançaram, pularam, gritaram e interagiram. O recreio prosseguiu com Chico dos Bonecos e seus brinquedos feitos com materiais exóticos, como caixinhas de fósforos, fitas, garrafas plásticas, barbantes, etc.

A caminho da oficina de Affonso Romano de Sant’Anna, duas jovens atiravam seus livros à distância. Eles deslizavam qual bola de boliche pelo cimento da rampa do Café do Fli, não satisfeitas, pisotearam as páginas. Em volta, alguns funcionários, passantes e leitores, que viram aquilo tudo da livraria, franziam o cenho, reprimiam a atitude com o balançar da cabeça, como quem diz: “coisa de menino, meninice danada”. A suposta heresia, no entanto, tem explicação. Tratava-se do interativo e camicase livro Destrua esse diário.

A alguns metros daquela rebeldia juvenil materializada e incitada em livro, no auditório Wander Piroli, que foi destinado a receber oficinas dos escritores, Sant’Anna ministrou o conceito de epifania no trabalho do escritor para um público bem mais silencioso e experiente que o do outro auditório. “O escritor é alguém que está olhando pela janela” definiu o poeta. Geminado ao término dessa oficina, começou a do arquiteto Gustavo Penna, sobre o diálogo entre arquitetura e escrita. Além de leitores, houve a presença de alguns colegas de profissão do palestrante. “A arquitetura é uma dimensão do outro. Não é uma resposta. É outra pergunta!”, explicou.

Após o encerramento da oficina, iniciou, no outro auditório, a palestra da historiadora Mary del Priore sobre histórias reais e sobrenaturais da cultura brasileira. Durante o papo sobre misticismo, espiritismo e o outro lado, algumas manifestações, que em outras palestras passariam despercebidas – como o barulho das pessoas andando sobre as tábuas do assoalho, pessoas tentando abrir as portas laterais por fora do auditório e até mesmo uma alma perdida que entrou no camarim antes do início e da qual se via apenas o vulto da camisa azul refletida na porta (sendo retirado por um membro da produção) – ganharam dimensões sobrenaturais. “A leitura mediuna o real do ficcional”, argumentou Mary del Priore.

Em seguida, Marcelino Freire e Luiz Ruffato, mediados por Humberto Werneck, discorreram sobre o desenraizamento em suas obras. O assunto enveredou soturnamente para as palavras morte e cemitério, e concidentemente – ou não – os três trajavam camisas pretas. Percebendo a migração dos autores, que saíram de suas cidades interioranas para capitais, pode-se concluir que, assim como os escritores, a leitura é peregrina, pois nos leva, leitores, a diversos lugares. Questionado sobre esse destino cigano dos escritores e leitores, Marcelino definiu a leitura como um eterno êxodo.

Logo após, Martha Medeiros e Leila Ferreira conversaram sobre como os relacionamentos mudam de geração pra geração. O público, em sua maioria, era de jovens e mulheres. Leila apresentou uma definição sensacional sobre a mulher depois dos 50 anos. “Ela vira ONG. Todos respeitam, admiram, mas ninguém quer se meter”, descreveu, em meio aos risos da plateia. Martha, por sua vez, argumentou sobre o tema do festival leitura para um mundo melhor: “leitura é a janela existencial”.

O primeiro dia se encerrou no Grande Hotel Tauá, no quarto fotográfico de Daniel Mordzindski. O argentino, apelidado de fotógrafo dos escritores, expôs 70 fotos em quatro paredes improvisadas que enquartaram uma cama. Nelas, diversas personalidades literárias emolduradas preencheram a mostra Quartos de escrita. Entre elas tinha a de dois convidados do Fliaraxá, Luiz Ruffato e Santiago Nazarian, feitas anos antes. As lentes de Mordzindski enquadram fotinskis, fotografias que buscam desmistificar o ato da escrita, romper o lugar comum e retratar os escritores em um gênero distinto daquele da sua obra. Além disso, um texto inédito de José Saramago, escrito exclusivamente para o fotógrafo, prefaciou a mostra.

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No segundo dia, o assunto que despertou o festival foi o mercado literário. Laura Conrado, autora infanto-juvenil, Humberto Werneck e Roberto de Faria e Silva, que após publicar cinco livros tornou-se editor, falaram para uma plateia hormonalmente inquieta. Jovens do ensino médio, de diferentes âmbitos escolares, destinaram a atenção aos escritores e aos próprios smartphones. Rodrigo disse que, como editor infantil, trabalha com a filosofia de estimular as crianças a terem várias percepções na leitura, desde o lirismo ao tom pastel utilizado nas ilustrações. Laura ressaltou que publicar o livro é apenas o parto. A divulgação e a promoção são etapas cruciais para a vendagem. O que foi notável no trato da escritora com seus leitores após o debate. Além de autógrafos e abraços, a própria Laura chamava os jovens e propunha selfies. Em seguida, deu um marcador de lembrança e pediu que a adicionassem no Facebook. Por fim, entregou um folheto, sugerindo que sejam entregues nas escolas. Talvez para possíveis palestras.

Às 15 horas pais e professores participaram de uma oficina de Rúbia Mesquita. Em pauta, táticas de como obter a atenção dos alunos, as entonações, as variações de vozes para compor os personagens das histórias e a importância do corpo no ato de contar. “O corpo conta as entrelinhas da história”, orientou Rúbia.

Quem saiu da oficina percebeu o intenso fluxo de jovens e uma enorme fila de adolescentes inquietos e ansiosos. Eles aguardavam a best-seller Paula Pimenta, conhecida pela série Fazendo meu filme, composta por quatro livros. Ao percorrer a fila, foi possível ver um grupo de cinco meninas sentadas em frente à mesa de autógrafo. Elas preferiram ver a fala de Paula dali, por meio das televisões que exibiam a palestra em tempo real, e serem as primeiras a conseguirem o autógrafo. Em um auditório apinhado de adolescentes e ainda chegando mais, faltavam bocas para tantos dentes. A aparição de Paula reverberou em aplausos, gritos, assobios e um esguelado “Paulaaaa, eu te amo”.

As fileiras de cadeiras abrigaram leitores com livros sobre o colo. Outros, desatentos e sem prestar atenção às falas da autora, pareceram estar lá para fazer parte do grupo, do modismo pré-adolescente. De um total de aproximadamente 400 pessoas, 90% eram de meninas. Após o bate papo, teve início os arcoirísticos autógrafos, limitados a apenas dois livros por pessoa. As canetinhas coloridas de Paula dedicaram páginas por mais de uma hora. O número de leitores foi proporcional à euforia. A admiração e o fanatismo são tremendos que muitos dos leitores estavam acompanhados de três, quatro livros da escritora. Para organizar o entorno do hall de autógrafos, uma equipe de apoio e segurança fez a demarcação do espaço para manter a ordem.

Em meio à balbúrdia, em um silencioso e cheio auditório Wander Piroli, Daniel Mordzinski e Victor Andresco conversaram sobre a fotografia como espelho transformador da literatura. Quem chegava atrasado ao papo conseguia perceber, depois de um tempo, quem era o fotógrafo. Quando Daniel falava, seus olhos eram atentos, inquietos, buscavam focos na plateia e piscavam como obturadores. Os de Victor, por sua vez, eram mais centrados.

Logo em seguida, Eliane Brum e Jacques Fux, mediados por Humberto Werneck, debateram sobre literatura e jornalismo. Fux acredita que a literatura é uma forma de abrir possibilidades, já que ela sempre foi o instrumento de dominação da elite. Para Brum, na leitura ela encontra o mundo de dentro e o de fora. “Ela dá sentido a nossa vida”, ponderou.

Às 19 horas, iniciou um sarau por meio das palavras de Affonso Romano Sant’Anna e dos sons da espineta de Elisa Freixo. Tanto a leitura quanto a música possuem variações de tons de acordo com o sentimento que se busca expressar. Logo depois, Humberto Werneck conversou com dois escritores a respeito da literatura de gênero, mais especificamente o policial e o existencialismo bizarro.

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A dupla, que já se acostumou a fazer vários eventos juntos, é Raphael Montes e Santiago Nazarian. Os dois se assemelham a Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, respectivamente. Montes, cuja literatura tem como mote a violência (tanto física quanto psicológica), é um autêntico livréfilo: divide seu apartamento com 4.500 títulos do gênero policial. Nazarian, com chapéu de caubói e bota texana em couro de jacaré, integrou à sua literatura o trash, o bizarro e, além de escrever, faz roteiros de séries, traduções e resenhas de livros. O que se assemelha a Rodriguez que além de dirigir, roteirizar, produzir e editar, ainda é diretor de fotografia e compõe músicas para seus filmes. Para Nazarian, é interessante que o escritor viva dos derivados da literatura.

O terceiro dia de festival amanheceu o sábado com a entrega do II Prêmio Fliaraxá Literatura na Escola.  O concurso de redação reuniu 3.200 participantes de 28 escolas, públicas e privadas, e apenas cinco foram selecionados. O anúncio da grande vencedora emocionou algumas pessoas. A escolhida foi Sofia Deckers de Faria, a mais nova das cinco finalistas, com apenas sete anos de idade, que foi aplaudida de pé.

Logo após a premiação, Fabrício Carpinejar falou sobre bullying. Com problema de dicção e dificuldade de aprendizado, aos sete anos ele foi encaminhado ao médico, que constatou retardo metal. Com isso, a mãe passou a alfabetizá-lo em casa. “Eu aprendi que diagnóstico não é destino. Podem te dar seis meses de vida, é um diagnóstico. Não significa que você vai viver apenas seis meses. Porque tem garra, fé, confiança e o amor de alguém que acredita em você e o faz acreditar” explicou. Sobre o acossamento na infância devido à sua aparência, ele foi apelidado por um colega de aspirador de pó. “Sou, sim. Vem trocar meu saco”, replicou. “Quem ofende não pensa na réplica e na tréplica. Por que quem ofende é tirano” esclareceu Carpinejar. Para ele, a leitura é uma arte marcial, que te ensina a falar e a ficar em silêncio.

Por ser “esquisito” visualmente, algo que gosta de cultivar – “eu não coloquei aparelho nos dentes porque queria manter o meu sorriso de criança” – e ser filho de poetas, sua escrita tem a miscigenação da crônica, poesia e crítica. Carpinejar tem metáforas bem humoradas e poéticas sobre a violência que é a suavidade da vida, o que repercute no grande número de leitores que, após o término do debate, o acompanharam para conhecê-lo pessoalmente e terem o livro autografado.

Seguidamente, Kledir Kamil e Humberto Werneck discorreram sobre a crônica, esse ornitorrinco literário que é tão mal visto por alguns. “A crônica é a contramão do jornal, é a subjetividade em meio à objetividade” declarou Werneck.  Kledir, que migrou da música para a crônica, exemplificou o poder melódico que a nossa língua portuguesa possui. “Em uma mesma palavra a simples mudança acentual modifica completamente a sua natureza. Ela passa de verbo pra substantivo e, se quiser, pra adjetivo. Como por exemplo, sabia, sabiá, sábia”, comentou entusiasmado.

Em uma das oficinas, Zuenir e Mauro Ventura conversaram sobre seus livros e as influências e desafios de pai para filho. Mauro falou sobre seu fluente livro-reportagem intitulado O espetáculo mais triste da terra, sobre a tragédia nacional que incendiou e matou mais de 503 pessoas em um circo em Niterói (RJ). O pai, por sua vez, falou do quão bom é escrever ficção, pois teve total liberdade de inventar tudo.

Às 18 horas, o calor do cerrado acompanhou o sol e foi substituído pela lua cheia que suavizou a noite. No sábado, ao reduzir a temperatura houve aumento de público. No auditório Luiz Vilela, mulheres puxaram seus pares pelas mãos (algum desinformado poderia pensar que ocorreria uma terapia de casais). Diferente do primeiro bate papo, que trouxe autoestima, combatividade ao preconceito e risadas aos espectadores, Fabrício Carpinejar, neste outro, falou sobre o melancólico e recente livro Me ajude a chorar. “A nossa vida não é pequena, nós que não sabemos lidar com ela”, poetizou.

O gaúcho leu a crônica Todo filho é o pai da morte de seu pai. A leitura das frases capturou ouvidos, propiciou fungadas, embaçou e transbordou olhos.

“É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe…

E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.

Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.

A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas”.

Aqueles que julgam, erroneamente, Carpinejar como monotemático, terão de ceder a esse livro.

Outro escritor que granjeia leitores é Clóvis de Barros Filho. O filósofo pulverizou a plateia com seu discurso primoroso em senso de humor e entonação impetuosa, que fez suas palavras reverberarem nos sorrisos dos espectadores e até do fotógrafo. Amigos e casais buscavam olhares cúmplices que se expressavam, concordavam e dialogavam silenciosamente em meio aos risos.

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O dia terminou com o auditório abarrotado de pessoas para assistir a poesia e a música de Poema Bar. O espetáculo luso-brasileiro traz poemas de Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa na leitura e no canto de Alexandre Borges, acompanhado pelo piano lusitano de Pedro Vasco, que dedilhou fado e harmonias improvisadas. Ao final, diversas pessoas tomaram o palco para compartilharem poemas favoritos, lidos ou memorizados.

 

Domingo, Dia das Crianças. O belo espetáculo Mania de Explicação, baseado no livro homônimo de Adriana Falcão, iniciou a programação comemorativa. As marionetes prenderam a atenção da meninada, enquanto o texto foi o cordel dos adultos.

“Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Alegria é um bloco de carnaval que não liga se não é fevereiro.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Certeza é quando a ideia cansa de procurar e para.

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele”

O ritmo dos movimentos das marionetes foi cadenciado e pontuado pelo balançar da cabeça dos artistas. A cada gestual dos personagens ou fala em um diálogo, os olhos atentos dos manipuladores acompanhavam a cena em um sincronismo esplêndido. Enquanto isso, crianças sentadas ao chão, em frente ao palco, observaram, com olhares curiosos e desconfiados, a fauna de marionetes e as bolhas de sabão a voar. Nas cadeiras, outras se dependuravam no colo e nos braços de mães e avós para assistirem.

Quase em frente ao tear da Fundação Cultural Calmon Barreto, em um banco de madeira, sob as sombras de árvores e circundado de crianças e pais, Rodrigo Libânio contou suas histórias nas páginas de seus barbantes ao tecer animais e formas, de um boi a um fusca. O contador possui o carisma e o dom do artesão para vidrar crianças, jovens e adultos com seus contos.

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Certa vez, ele foi convidado por um delegado do Rio de Janeiro para fazer uma dinâmica com os presos. Na delegacia, próxima ao sambódromo carioca, camburões chegavam com detentos algemados que eram levados até o pátio. Quando Rodrigo chegou e se deparou com 30 detentos, sentiu o peso daquele ambiente e retirou-se para uma sala. Lá, orou, pediu bênçãos e que algum ser iluminado o ajudasse naquele momento. Em seguida, retornou e iniciou as dinâmicas, que tocaram aqueles homens de forma crescente, fazendo com que eles interagissem e percebessem o contato do outro, e assim, redescobrissem a própria existência.

Por fim, após uma hora e meia naquele contato, eles conseguiram libertar a criança que haviam aprisionado em si por algum motivo. Seja por terem que trabalhar desde a infância, terem sido presos muito jovens, pertencerem a uma sociedade machista que os obriga a se comportarem como alfas, enfim.

Com o encerramento da dinâmica, mais impactante do que trazer a infância àqueles homens considerados párias, foi a fila que se formou para a despedida. “Os caras me davam um abraço de boca aberta, me sugaram a alma com suas carências. Depois disso, tive que passar três dias em Belo Horizonte recuperando as energias”, revelou aliviado.

Após alertar as crianças sobre o perigo da dengue e de se colocar a mão em aranhas, os barbantes de Rodrigo deixaram de origamizar animais e objetos e se despediram dos araxaenses meio as palmas dos espectadores.

Perto dali, no auditório Wander Pirolli teve início o desfecho do festival. A cerimônia de encerramento ficou por conta do músico Tino de Freitas, que, em parceria com Leo Cunha – um dos curadores desta edição do Fliaraxá – compuseram a música do Tamanduel, mascote do Fliaraxá. Com cadeiras em semicírculo, Tino Freitas contou histórias em livros interativos, quase sanfonados, que acompanhavam o desdobramento do enredo com o desembrulhar das páginas ao revelar vários animais.

Com a presença de Tamanduel, “crianças grandes” e pequenas, como Tino se referiu aos pais e filhos que estavam presentes, acompanharam atentos a leitura interativa, que deu liberdade aos ouvintes de participarem da história. Seja ao soprar a página e fazer uma bolha de sabão ou a tentar adivinhar o bicho que se revelaria na próxima página. “Macaco, elefante, Tamanduel!” A cada lembrança de si, o mascote mexia contente e Tino aproveitava pra cantar “com a po-e-si-a, na ponta da lín-gua-gua. Vi tamanduel festeiro no Fliaraxá”.

No meio da história, surgiu o nome de um animal chamado Furacão. Tino perguntou às crianças o que é um furacão e recebeu uma resposta que parece ter saído das páginas de Mania de Explicação. “Furacão é um vento forte que vai pro céu”, disse, sem titubear, um pequeno que estava sentado aos pés de Tino. Os presentes se impressionaram com a definição.

Durante esses quatro dias de evento, vários escritores falaram sobre a solidão do processo da escrita. Várias inspirações devem ter maturado nos quartos do Grande Hotel de Araxá, não só pela imponência, a distância da cidade e toda área verde ao redor, mas, sobretudo, pela pequenez que tamanha magnitude arquitetônica submete o escritor.

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Com um saldo de 40 mil livros vendidos, média de quatro por pessoa, o III Festival Literário de Araxá, que começou com escritores do passado eternizados nas fotinskis de Daniel Mordzinski e percorreu os contemporâneos que estiveram presentes no evento, se encerrou com potenciais escritores, que, após o encerramento tiraram fotos com o Tamanduel, ansiosas pela próxima edição, em 2015.

* Cobri o festival a convite do idealizador Afonso Borges

(Fotos: Jackson Romanelli)

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