Prefiro ônibus a carro

3de5ddbdb04aa554c96f2d9c739c9c5c

Um dos motivos de preferir ônibus a carro, para me locomover diariamente, é o tempo que posso dedicar a leitura. Sobretudo nos horários de evasão coletiva. Por isso, sempre carrego um livro em minha mochila. É óbvio que a leitura depende muito do veículo que pegamos, do motorista e do itinerário percorrido. Há ônibus, cujo chão é aquela chapa xadrez de alumínio, que se assemelham ao Samba (brinquedo de parque de diversão que é um pandeiro gigante com assentos na beirada e que se movimenta conforme a música). A falta de atrito faz com que os passageiros se locomovam igual a um sabonete molhado sobre o azulejo.

Por outro lado, a trepidação da carcaça do ônibus, influenciada diretamente pela pavimentação das vias, impossibilita a leitura e possibilita a tontura (descolamento de retina só se o ônibus bater, e olhe lá). Fora esses fatores, normalmente a leitura é tranquila.

Hoje entrei no ônibus e vi um senhor negro de barba aninhada acompanhado de uma bengala, sentado naquele banco amarelo, assento especial, antes da catraca. Ele me olhou como quem mendiga um olhar. Olhei e sorri para ele, acenando com a cabeça e ciciando um tudo bem? Ele sorriu de volta. Paguei e passei a catraca. Sentei no lugar de costume, do meio pro fim do ônibus, onde não sacode muito, favorecendo a leitura.

Na dupla de cadeira da frente, um rapaz usando uma toca preta sem fundo, que encoqueirava os dreads sobre a cabeça, lia um livro grosso. A julgar pela diagramação, papel e entrelinhas é literatura estrangeira, acho que desses livros que tem vários volumes. Sigo em minhas páginas. Sempre que estou andando de ônibus, lamento pelo tempo perdido de leitura dos passageiros que insistem, como cães, a flertar as janelas e nada verem. Veem, mas não notam nada. Entretanto, até esse comportamento natural tem se extinguido. As cabeças que se viravam ontem, hoje se curvam aos telefones.

O trocador, um homem de cabelos brancos e penteado à Cid Moreira, administra, além da catraca, o desembarque de passageiros desavisados. Após lembrar uma passageira que ela deveria descer naquele ponto, se dirige a uma mulher e diz, “hoje é assim! Fica no zap zap… zapeando e esquece da vida. São duas coisas: zap zap e fone. Nem prestam atenção onde vai ou tem que descer”.

Na fileira ao lado da minha, um jovem, com algumas espinhas e fiapos de pelos nas bochechas e barba de bode, se limita ao fone e a segurar o case de instrumento musical entre os joelhos. O ônibus para e embarcam passageiros. Enfurnado na leitura, desvio o olhar para a fileira de trás e vejo que uma moça lê um livro velho na encadernação e na capa dura. Decido contar os passageiros e quantos leitores explícitos. Dos 17, somos três a ler. Curiosamente, sentamos próximos e do mesmo lado do ônibus.

Sempre que identifico alguém lendo, imediatamente faço uma pesquisa silenciosa e introspectiva do leitor. Qual o gênero do livro? Qual a finalidade? Leitura de vestibular? Concurso? Do curso? Autoajuda? Religioso?

Torço para que os outros dois leitores desçam antes de mim, assim posso ver as capas no fechando do livro. O rapaz dos dreads imerso na leitura sequer levanta o olhar. A moça escancara as páginas do livro como asas de morcego em pleno voo. Passam pontos, aproxima-se o meu e os dois seguem tranquilos na leitura. Até que me lembro que alguns livros, sobretudo antigos, trazem o nome do autor e do livro no alto das páginas, como sobrancelhas. Miro o livro do rapaz. Meu olhar é baldado. Chega o meu ponto. Levanto-me. Ao passar ao lado da moça, vejo que no livro dela há três palavras no topo das páginas. O papel amarelo sebo miopza as letras.

Desço encafifado por não descobrir os títulos lidos e os gêneros. Mesmo sabendo que aquele ônibus é singular, o que importa é que desci do ônibus e, do passeio, olhei e os vi tapados em seus livros. Pela espessura de um e a idade do outro, de autoajuda não são. Leitura que segue.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *