Palmeiras profilático

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O futebol ingressa na vida de homens e mulheres na maioria das vezes através do pai. O time é o cordão umbilical que comunicará o pai ao filho para o resto da vida. Meu pai me deu a primeira camisa do Palmeiras quando eu tinha seis anos, em 1994, ano em que o Palmeiras seria bicampeão brasileiro sobre o Corinthians. Em verde escuro e listrada de branco, recordo que era de um tecido grosso, muito quente e que quando eu me aproximava da tela da televisão ele acarrapichava e estralava, como os cabelos do braço.

Cinco anos depois, nas quartas de final da Copa Libertadores da América, meu pai e eu vimos o Palmeiras eliminar o Corinthians nos pênaltis e sagrar-se campeão quatro jogos depois, conquistando o título também em uma disputa de pênaltis. No ano seguinte, agora pelas semifinais, também da Libertadores, a catarse se repetiu nas mãos de Marcos, canonizado como São Marcos. Desta vez, a comemoração foi mais exaltada, de maneira que meu pai quebrou o estrado da cama na defesa de São Marcos na cobrança de ninguém mais que Marcelinho Carioca, o craque deles. À meia noite, meu pai sorridente dava marteladas para consertar a cama antes de dormir. Na final, perdemos, advinha como? Nos pênaltis.

Em 2007, mudei para Belo Horizonte. Entretanto, desde então, sempre que ocorre um Dérbi, jogo entre Palmeiras x Corinthians, procuro ir à Lavras e assistir junto com meu pai. Apesar das discussões.

Meu pai foi lateral direito, capitão e técnico do Bocaina, time da fazenda do meu vô que é pentavicecampeão rural, sendo que três vezes perdeu nos pênaltis. Em uma delas com meu pai cobrando à Baggio. Ele nega. Eu lembro. Com essa bagagem no ramo, ou melhor, na várzea, para o meu pai é inadmissível que um profissional erre passes, lançamentos, cruzamentos. “Se eu fosse o técnico, depois do jogo ele ia ficar cobrando escanteio até aprender e a perna doer”, exclama pedagogicamente. Tomar gol de cabeça então é um decreto de incompetência. Argumento que não é tão simples marcar, que há muitas jogadas ensaiadas, que são treinadas inúmeras vezes diariamente, tanto de quem ataca, como de quem defende. Todos os jogos isso se repete. Discutimos tanto ao ponto de minha mãe ir à sala e perguntar, “vocês torcem para o mesmo time?”.

Quando não assistimos juntos, conversamos pelo telefone no intervalo do jogo ou depois, depende do desempenho. Nos últimos quatro anos, fomos eliminados na semifinal do campeonato paulista de 2011 pelo Corinthians nos pênaltis. Ganhamos a Copa do Brasil em 2012 e fomos rebaixados, enquanto o arquirrival conquistou a América e o Mundo. Ganhamos a série B. Voltamos. O ano passado, centenário do clube, quase fomos rebaixados pela terceira vez. O contexto recente não nos favorecia, a última vitória tinha sido em 2011.

Atualmente, nosso adversário é o melhor time do Brasil, cujo os jogadores, ou melhor, a maioria deles, possui três anos de entrosamento e, além disso, o técnico brasileiro mais atualizado e dinâmico. Enquanto isso, o Palmeiras se reformulou. Contratou técnico e 20 jogadores. Do time titular do ano passado apenas um permanece efetivo, Fernando Prass. Domingo foi o dia de testar o planejamento e o entrosamento de quatro meses.

Com uma zaga que nunca tinha jogado uma partida e um zagueiro improvisado na lateral esquerda (quinta opção, mas era o que tínhamos) essas eram nossas desconfianças, fraquezas e tensões ululantes. O xadrez futebolístico foi jogado de maneira elaborada pelos dois técnicos. As peças se locomoviam de maneira a defender armando o bote e atacar resguardando. Vitor Ramos deu voz a minoria, porém, pouco tempo depois, ainda nos 45 minutos iniciais, Danilo e depois Mendonza entoaram a maioria.

Quando se joga contra um adversário inteligente e competente é necessário que as variações táticas dele sejam estudadas e contra-atacadas, forçando-o a redefinir as táticas. Sabendo disso, na etapa final algumas peças deram lugares a outras. Oswaldo de Oliveira mudou a tática e as peças escuras dominaram as ações no centro do tabuleiro, desenvolvendo nas laterais e protegendo o rei (o goleiro). Recuado, as peças claras se moviam burocraticamente e de maneira previsível. As substituições palmeirenses foram profiláticas para minar a agudez dos contragolpes corintianos. O peão Gabriel travou as ofensivas de Mendonza. Logo depois, Kelvin entrou para ser incisivo no pacífico lado esquerdo que era habitado por Wellington, extirpando a última insegurança, já que a zaga portava-se bem.

Em passagem de profundidade, tendo a atenção do marcador e o deslocamento da defesa, Kelvin atraiu Fagner e Dudu fez o cruzamento para Rafael Marques empatar o jogo, aumentando o número de ansiosos e de metros quadrados de unhas ruídas. Vieram os pênaltis. Foram as unhas.

No momento da escolha da lista, Valdivia abraça Robinho e diz algumas palavras. O elenco se abraça e alguns vociferam vitória. Robinho foi Zinho nestas penalidades. O jogador mais regular que vai para a primeira cobrança e tem desfecho inoportuno. A bola, ao passar sobre o gol em direção a arquibancada, orquestra uma ola de mãos da torcida corintiana. Ao ajoelhar-se e levar as mãos à cabeça, Robinho deve ter pensado no gol de placa que fez contra o São Paulo e provavelmente, se perguntado, diria que trocaria pelo acerto deste pênalti. Antes de voltar ao meio campo, olha para Prass suplicando esperança. Em seguida, Fábio Santos chuta a bola que pega na trave esquerda, aquela que minutos antes repeliu o chute de Dudu, mas que desta vez seduz a bola as redes. Supersticiosos disseram, “não ganha. Já era. A nossa bola pega na trave e sai. A deles bate e entra”.

As cobranças seguiram e Robinho permanecia como um islâmico a orar. Prostrado ao chão, testa no gramado, ouvidos nas reações e suplicando a Prass. Após cada batida o cobradores palmeirenses oferecem confiança a torcida e vão até o arqueiro frisar que as mãos dele proporcionará a catarse.

A bola de Elias fica nas mãos de Prass, igualando o marcador. O zagueiro Jackson, desconfiança antes da partida – “isso não usa, zagueiro bater pênalti”, decretou meu pai – pendoou a esperança, que é verde. Bastava o goleiro alviverde defender a cobrança de Petros e o Palmeiras se classificaria para a final. Fernando Prass aguardava a bola, assim como Aquiles a Heitor. Petros permaneceu imóvel por oito segundos, bem como a torcida corintiana. Prass se movimenta e grita, “acabou, Petros”. Como Aquiles a retirar o elmo e convocar Heitor para o embate. Petros cobra, a bola vem e a mão esquerda de Prass debanda a comissão técnica e os jogadores do Palmeiras.

Na catarse, Valdivia, odiado por alguns torcedores, se atira aos braços da torcida como uma camisa jogada. Fernando Prass traz Robinho nos ombros reerguendo-o e redimindo-o. No rosto os olhos embargados e agradecidos pela ausência de crucificação. Perguntado, Robinho declarou, “eu acho que eu decepcionei, mas o Fernando… Esse cara é foda!”.

Tais atitudes nos mostraram que temos um técnico, um time, um elenco, mas, sobretudo, um grupo. Os idiotas da objetividade menosprezam, “é só um campeonato estadual”. Não, não é. É o peito sorridente de quem se sentia esfarrapado e que agora veste esta camisa sem receio e com orgulho do time.

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