O silêncio

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Em uma rua obscurecida pelas sombras das copas das árvores, alguns feches de luz originados dos postes perfuram as folhas e clareiam o asfalto. São quinze para as onze da noite. Uma mulher caminha sozinha, regressando para casa após mais um dia de trabalho e faculdade. A moradia não está distante, visto o chaveiro dependurado da mão.

As mortas folhas, presentes nessa época do ano, anunciam a presença de alguém. A mulher, sábia, anda na contramão, no meio da rua, como um carro, distante das margens do asfalto, evitando encontrar alguém. No instante que a folhagem âmbar que entapetam a calçada é pisada, seus ouvidos transmitem informação ao cotovelo que abraça a bolsa e aos pés que aumentam o ritmo das pernas. A consciência arreceia por um trauma irreversível. Imediatamente, ela se lembra de ter lido em algum lugar que uma em cada cinco mulheres será estuprada. Temendo ser a uma, ela sequer olha para trás.

A pessoa percebe que a mulher adiantou o passo por medo. Ressabiado, também aperta o caminhar. Ao ultrapassar a mulher, ela vê que é um homem. Tensa, observa e pensa no que fazer. Gritar? Correr? Pedir ajuda? Durante todo esse período não passa um carro, um ônibus, uma moto, uma pessoa. Apenas os dois compõem a rua. A mão umedece as chaves.

Ela então se apressa para acompanhar, a uma certa distância, o homem. Ele percebe o caminhar preocupado dela e reduz. Novamente o frio da insegurança a visita. O homem nem mesmo olha para o lado e continua seu percurso. Ela permanece no encalço dele. E assim caminham, por mais dois quarteirões. Até que ela curva em uma esquina e ele segue adiante. A mão e as suadas chaves são enxugadas no vestido e abrem o portão.

O que aconteceu, em um curto período de sete minutos, foi uma gentileza silenciosa. Não foi anunciada para uma plateia, como alguns que se levantam no ônibus para dar lugar e bradam a convocação da pessoa para sentar. Soando como heroísmo hollywoodiano. Percebendo o medo daquela mulher, o homem resolveu acompanhá-la sem uma troca de olhar ou palavra. Na simples companhia do caminhar. Às vezes, o silêncio, rotulado erroneamente de conformista, é conciliador.

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