O homem de preto

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Após tomar um tapa de Eu sei, mas não devia de Marina Colasanti resolvi almoçar no parque municipal de Belo Horizonte para ver a vida. Fui ao Subway e comprei um sanduíche. Peguei a Bahia, cruzei Afonso Pena e desci os degraus do parque. Tal fauna, submersa ao quarteirão, é uma peça verde desgarrada do quebra cabeça de paisagem urbana. Um homem sentado na grama observa o andar pescoçal dos pombos. Nos bancos de madeira que encurralam o coreto, pessoas descansam a sombra e quaram, adquirindo vitamina D. Num dos bancos, há um homem negro de roupas pretas deitado. Escolho o coreto como refeitório pela altura, não só para ter mais visão do entorno, mas também por ser arejado.

Subo a escada e vejo que três jovens estão encantoadas, aninhadas as mochilas e flertando os cadernos. Me sento do outro lado, de frente a elas. Enquanto almoço, duas delas, mais próximas e íntimas, pelo tom da fala, estudam equações matemáticas. “Menos seis, vezes zero. É zero, né!”, exclama a jovem com piercing no septo. A outra, magrinha e serena, com tom de estudiosa, comemora a resposta. A terceira, deitada no chão de barriga para cima e com as pernas apoiadas no guarda corpo, desenha uma das colunas que sustentam o forro do coreto.

No meio da refeição, observo a presença de um gato que caminha em minha direção com andar preguiçoso no remar das patas dianteiras. Ele passa a minha frente, ganha a atenção das meninas, se distancia e retorna num locomover bordejado felino ao se amparar e esfregar no guarda corpo. Reparo que no meio da orelha esquerda há um furo. A jovem magrinha o chama, ele a olha por educação e continua a patas morrinhentas. Até que ela o chama e mostra um raminho de planta, condão para infantilizar a postura adulta que ele portava. Continuo a comer e vejo uma mulher ao celular, impaciente, de frente para o negro de roupas pretas deitado no banco.

Em instantes, adentra ao coreto outro gato, este branco e cinza. Busco violentamente as orelhas dele. O furo é na da direita. O que me deixa encabulado. Seria uma moda punk/hipster dos gatos que habitam o parque municipal?

Retorno a realidade com o giroflex da moto da Guarda Municipal. Me levanto e vejo um semicírculo de pessoas em curiosidade bovina a olhar a tremedeira daquele homem de preto enquanto espuma pela boca. Um dos guardas retira uma luva descartável do bolso da calça, a veste e força o queixo do homem para abrir a boca. Desço do coreto. Me junto a boiada. O ser humano tem uma capacidade recorde de se importar e menosprezar algo, como cinco segundos de propaganda no Youtube.

Uns vão, outros chegam. Um atleticano, em camisa e calça, observa e comenta, “esfrega a mão no braço dele, assim ó”, demonstrando. Percebendo o olhar de descaso do guarda, continua, “tô falando isso porque meu irmão tinha isso também. Eu salvei a vida dele três vezes desse jeito”, antes de deixar o local com o amigo. “Deve ser falta de comida, né, cara”, me assusto com um jovem comentando comigo. Respondo que pode ser. O homem de barba hirsuta, como um kiwi, é um mendigo, visto que veste molambos e os pés rachados e negros asfáltico de tanto caminhar. Ele para de tremer e o guarda municipal verifica os bolsos se há documento. Até que encontra algo. Sua identidade? San Marino. Um maço de cigarro paraguaio que traz no bolso. O guarda o posiciona, qual um boneco de pano, para se sentar no banco. Aos poucos os olhos parecem se situar. Os guardas tentam mantê-lo acordado ao perguntarem o nome, se ele comeu e se sabe onde está.

Ele responde com trepidações dos lábios emitindo sopros estourados. O cheiro de fezes atrai mosquitos que se reúnem entre as pernas do homem, mas também há outros que lhe beijam o rosto. Ele desiste de tentar dizer algo. De repente, as íris negras embotadas empinam e o olhar se torna branco, ele inclina para o lado direito e cai sobre o banco em posição fetal com as mãos em garra. Um dos guardas estica as pernas do homem, enquanto o outro liga para o Samu. Os dois guardas municipais transmitem incômodo com minha presença ocular. Mexo no celular simulando conversar com alguém que marquei de encontrar ali no coreto.

Após 45 minutos a UTI móvel chega, trazendo mais olhares a situação. Dois homens e uma mulher deixam a ambulância escancarada e caminham até o mendigo empurrando uma maca. Eles conversam com os guardas municipais sobre o caso do mendigo. Sentado, mal conseguindo sustentar o peso da cabeça, como um frango morto, ele sofre outra convulsão. Desta vez, a queda é evitada pelos braços de dois técnicos de enfermagem e um dos guardas municipais. Um segura as pernas, outro o tronco e o terceiro impede com a mão que o mendigo babe ou cuspa no que o segura as pernas. Me canso de ficar em pé e sento em um banco vizinho.

Ao término da crise, o motorista da ambulância busca um rolo de papel e forra a maca com três camadas de papel. O mendigo é deitado e levado a viatura. Permaneço sentado a observar o paciente e os curiosos. O guarda municipal que ofereceu os primeiros socorros vem até mim. “O senhor acompanhou o caso todo. Poderia me oferecer seus dados como testemunha? Tudo bem?”, solicita. Ofereço meus dados e ao dizer minha profissão, jornalista, ele reage num balançar de cabeça discreto de quem desvendou um enigma. O da teimosia de ficar ali olhando o trabalho deles. Ele agradece e vai até a mulher que solicitou a presença deles no caso.

Me levanto, contorno o canteiro de flores e vou até a ambulância. Enquanto observo as pernas inquietas do homem deitado a maca, outros dois gatos se aproximam. Lembro da moda punk/hipster felina e recorro as orelhas. Em um gato rajado o furo está na orelha direita, quando olho para a gata branca, cinza e bege ela se esconde entre os arbustos. Encucado para verificar as orelhas, permaneço o olhar por onde ela entrou. Ela sai pela grama e não possui furo nas orelhas. O gato rajado permanece próximo e reparo o diâmetro do furo, suponho que tenha sido feito por alguém munido de um cigarro aceso. Pela arisquez da gata, que foge a presença humana, suponho que ela evitou a moda punk/hipster felina do parque municipal.

O mendigo permanece deitado na maca respirando pela máscara de oxigênio e recebendo soro. Na lateral da ambulância o motorista me olha com olhos de reprovação e os guardas municipais conversam, talvez aquele que pegou meus dados comente que sou jornalista. Percebo que a uti móvel permanece parada até que o paciente esteja estável para o transporte. Uma mulher para, olha para mim e pergunta, “alguém passou mal aqui dentro?”, aceno a cabeça de maneira positiva. Ela vira as costas e segue a vida.

O motorista vai até a traseira da ambulância e fecha as portas. Não demora e a viatura parte com o mendigo, lentamente, igual aos curiosos que pararam alguns segundos para nutrir a curiosidade, mas que foi digerida e acostumada antes mesmo de sair do parque. “A gente se acostuma… a ser ignorado quando precisava ser visto… A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma”, conclui em versos eternos Marina Colasanti.

 

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