Mad Max: Estrada da Fúria

John Aslarona

Ao acompanhar a repercussão positiva envolvendo Mad Max: Estrada da Fúria, resolvi, antes de assistir o mais recente, ver a trilogia lançada no final da década de 1970 e encerrada na metade da de 1980. Impressionei-me com a habilidade de George Miller de inserir tensão, beleza estética e domínio das câmeras ao dirigir cenas de perseguição.

Tendo os três filmes fresco a memória, vi o mais recente, em 3D. As logomarcas enferrujadas da Warner e da Village Roadshow nos alertam que os personagens são vítimas da ferrugem da época. Na primeira cena é notável o apuro técnico do diretor australiano ao empregar uma câmera estática que não se limita a ambientar o local, mas também a explorar a profundidade de campo e narrar a impolidez daquela atmosfera. No enquadramento, há um carro parado a esquerda, Max urinando, centralizado, e ao fundo a aridez do deserto que no horizonte se matiza ao céu.

Em seguida, a câmera abaixa e nos mostra um desconfiado calango que se arrasta até morrer na bota de Max. Instintivamente, o protagonista percebe que há alguma movimentação não tão distante e foge. Permanecemos com a poeira em um quadro vazio e, em certo momento silencioso, até ser preenchido por rodas, barulhos de motores e poeira dos perseguidores de Max. A duração de uma tomada, na maioria das vezes, nos conta muito mais do que planos rápidos, sobretudo a respeito da capacidade técnica do diretor. Miller, experiente que é, tem paciência e sabedoria para evitar o senso comum dos filmes de ação, que insistem em vários planos curtos e confusos que nada dizem.

Vemos o capotamento do carro de Max a distância e não há elipse que acelera o processo para descobrir o que aconteceu com o protagonista. A câmera espera calmamente a poeira baixar e revela o personagem ensanguentado saindo com dificuldade dos destroços.

Neste novo Mad Max, George Miller é leal as melhores qualidades dos longas anteriores – figurino de influência medieval/punk, armas de lançamento (arco e flecha, bestas e lanças), lança chamas, lançador de arpão, culto ao V8, predileção aos supercompressores que emergem dos capôs, o protagonismo de caminhões, atropelamento de motos, prisioneiros amarrados aos carros, qual figuras de proa, aceleração dos fotogramas nas cenas de ação e vilões exóticos e mascarados – e se reinventa ao usufruir da liberdade dada por um orçamento de 150 milhões de dólares. O que favorece o fabuloso trabalho de design de produção.

Fundamentado na ideologia do Bigfoot, são utilizados vários esqueletos de carros como, por exemplo: Fargo pickup (1940), Chrysler Valiant Charger (1970) transformado em tanque e até duas carcaças de Cadillacs Coupe Deville (1950) sobrepostos a pneus de tratores. Toda essa gambiarra engenhosa é para monstrificar os automóveis do filme, os tornando interessantes coadjuvantes. Como os personagens criados por Sid, em Toy Story, ao arrancar a cabeça de uma boneca e inserir no lugar a de um pterodáctilo.

A paleta rubiginosa que prevalece no figurino do povo simboliza a ausência de lucidez, já nas frotas de carros denota a insânia dos condutores. A cor branca, comum aos filhos da guerra, representa as crianças de Imortal Joe e Imperadora Furiosa. A negra, dominante em alguns automóveis, demostra a autoridade dos condutores (exemplo disso é que Max e depois Nux só assumem a condução do caminhão da Imperadora Furiosa, quando eles demostram fidelidade a causa e, portanto, tornam-se autoridades). A cor vermelha, exclusiva do figurino do guitarrista, representa a excitação que ele propaga nos acordes que influenciam de maneira flamejante no comportamento dos filhos da guerra. Ao passo que a cor branca, que predomina o figurino das esposas de Imortal Joe, traz esperança. Aliás, apesar do personagem principal dar nome ao filme, é protagonismo feminista que conduz a saga do herói.

O roteiro, assinado por George Miller e dois iniciantes, é instigante ao empregar elementos que enriquecem a narrativa e justificam o seu emprego, como: o tipo sanguíneo de Max, doador universal, e a elefantíase de um personagem que ganha um desfecho inventivo.

George Miller agrada desde o espectador comum aos cinéfilos exigentes. Enquanto os demais filmes do gênero são feitos de praticamente 90% de CGI, Mad Max utilizou apenas 10%. Os carros são reais, as pessoas, as chamas, as explosões, o deserto, o guitarrista tocando. Esse maduro road movie de ação – que possui momentos tensos na perseguição, assim como o bom filme Encurralado de Steven Spielberg – é um clássico contemporâneo que demonstra que é possível fazer um blockbuster autoral.

(Finalizando esta crítica, descobri que as filmagens tiveram início em 2012. Por que demorar tanto para o lançamento? Pesquisei e descobri que George Miller empregou o método “back to back” e filmou dois longas neste período. O próximo chama Mad Max: The Wasteland)

Obs: (O filme possui tanta poeira que em determinados momentos da sessão quatro pessoas, inclusive eu, tossimos secamente. Fazer o que, antes 3D do que dublado!)

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