O Dia do Galo

cuca

Em 2011 o Atlético-MG além de sofrer durante praticamente todo campeonato brasileiro, ao flertar com o rebaixamento, foi incapaz de acaçapar o rival, e pior, virou chacota ao sofrer seis gols. No ano seguinte, apesar do sempre paliativo campeonato mineiro, a torcida desacreditava. Como o galo pode entregar o jogo daquele jeito ao Cruzeiro e não rebaixar o rival? Jogo vendido! Culpa do azarado Cuca!

Na segunda feira, dia 4 de junho de 2012, o duas vezes melhor do mundo pousou na Cidade do Galo. Por alguns instantes os piadistas esqueceram do 6 x 1 e alcunharam o centro de treinamento de Cidade do Golo. Ronaldinho não só revigorou os torcedores e seduziu as lentes da imprensa, como também realizou o sonho de muitos jogadores que o tinham como ídolo. Há 13 anos, enquanto Ronaldinho Gaúcho era campeão do mundo com a seleção brasileira, a maioria dos titulares atleticanos que seria vice campeão brasileiro em 2012 tinha menos de 20 anos. Para os críticos, Ronaldinho respondeu com 14 assistências e o troféu Bola de Ouro, como o melhor jogador do Campeonato Brasileiro.

De todos os efeitos colaterais provocados pela vinda de Gaúcho o mais significante foi o de expurgar o complexo de vira lata que encarnava no time e nos torcedores. Viram nele o messias que foi comissionado em transformar toda paixão dedica e as lágrimas desabadas em troféus. Esse contexto levou, após 12 anos, o alvinegro mineiro a disputar a Libertadores.

No início da jornada, em um embate contra um adversário gabaritado no torneio, Ronaldinho foi Moisés. Através da água, conduziu o time para a vitória. Na primeira fase as partidas foram vencidas e a confiança da torcida crescia junto ao saldo de gols. Nas oitavas de final, contra o mesmo oponente da estreia, deu aula de futebol e demonstrou quem mandava e despachava no terreiro. Tal eficiência gerou o lema, “caiu no horto, tá morto”.

Eis que chega as quartas de final no México. Em desvantagem no placar consegue o empate a dois minutos do fim da partida. No jogo de volta, a torcida preparou uma atmosfera com direito a máscara do pânico para mostrar ao time mexicano que no Horto, assim como no México, “festejasse a morte”. No último lance da partida, cujo placar além do 1 x 1 trazia a classificação atleticana, ocorre um pênalti para o Tijuana. Além de toda tensão que emana da cobrança da penalidade e da proximidade da eliminação, a angustia foi potencializada por obra dos milhares de rostos sem olhos e em pânico avesso ao gramado.

Naquele instante, os torcedores se culpavam por terem levado as máscaras e/ou acordarem com o pé esquerdo. Porém, bastou uma perna canhota para a catarse coletiva. Um homem acompanhado de sua caixa de isopor, levado pelo êxtase da defesa, fez chover picolés. As lágrimas que ardiam se tornaram refrescantes.

No primeiro jogo da semifinal uma derrota dolorosa. Pela primeira vez o Galo teria de reverter o placar ou, ao menos, obter o mesmo resultado para torturar-se na disputa de pênaltis. A torcida desacreditada de 2011 agora não se contentava em crer para si. Era preciso vociferar para que todos ouvissem que a esperança nunca desquitou dos atleticanos. O “Eu acredito” virou bom dia. De tanto acreditarem, conseguiram o resultado, a vitória nas penalidades e chegaram à final.

O placar do jogo de ida da final foi o mesmo da primeira semifinal, 2 x 0 para os adversários. A façanha teria que se repetir. Apesar de ser palmeirense, mas também cinéfilo, percebi na campanha do Atlético um roteiro dramático e riquíssimo que daria um belo filme.

É exatamente de onde deixei de concluir a campanha do alvinegro mineiro que O Dia do Galo começa. Ao acompanhar a expectativa de vários torcedores nas horas que precedem a derradeira partida, o filme além de retratar o multifacetado personagem torcedor, submete os atleticanos a lembrarem da própria rotina naquele dia. Da preparação, da crença, das superstições, dos beijos nos santinhos, da promessa de uma vela acesa, da touca da sorte, da improdutividade gerada pela ansiedade, da solidão de torcer sozinho e distante, da esperança do outro que motiva os demais e do sofrimento que atiça a esperança.

A verossimilhança que O Dia do Galo retrata o torcedor e a torcida durante o jogo demonstra uma atmosfera muito mais rica do que a partida, os lances e os gols. A narrativa e a edição são tão bem executadas e exploradas que servem como biografia do torcedor, de qualquer torcedor, independente de mascote.

O filme constrói uma proximidade sentimental tão intensa que transforma a sala de cinema em arquibancada. Através da narração de um personagem, os gols – mesmo sem serem mostrados (como em uma transmissão de rádio) – são vibrados como se fossem inéditos. A construção imagética, a fotografia, tem como ápice o enquadramento que mostra da visão do torcedor, exatamente atrás do gol das cobranças de pênalti, a bola chocando com a trave e motivando a derrocada da vitória.

Apesar do belo filme creio que alguns cruzeirenses e até mesmo torcedores de outros times não o assistirão. É lamentável que no Brasil tenhamos tantos torcedores, mas poucos admiradores de futebol.

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