Aquarius

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Aquarius pode ser visto pelos olhos sinopsiosos como um filme em que uma empreiteira quer desabrigar uma moradora de um antigo edifício para construir um novo, é uma leitura Up – Altas Aventuras.

O primeiro capítulo do filme, vivenciado na década de 1980, não só contextualiza explicitamente a memória afetiva de uma cômoda, como nos oferece uma elipse de uma sala cheia para a mesma sala, décadas depois, vazia. O recurso narrativo nos faz compreender o valor simbólico daquele apartamento para Clara. Outra metáfora interessante é quando Clara explica a uma nova repórter, em busca de objetividade, a diferença entre a importância histórica afetiva de um vinil ao jovial mp3. E conclui, na incompreensão da jovem, que a fala dela, assim como o disco são uma garrafa ao mar. É preciso saber ler.

A partir do segundo capítulo as cenas são ralentadas, condizentes com a idade e a rotina de Clara. A sequência em que ela cochila na rede, enquanto um jovem com um celular tira fotos e filma a fachada do edifício Aquarius diz muito sobre o embate e as pretensões dos personagens. A câmera acompanha três homens, inclusive o jovem, entrando no edifício e depois Clara dormindo, o que nos diz que eles perturbarão o sono dela.

A proposta deles é de comprar o apartamento de Clara para a construção de um monstruoso prédio. A ironia no nome da construtora Bonfim engenharia é nítido. Bom fim para quem? Para os brancos abastados do Recife.

Iniciasse o confronto entre a velha, Clara, avó e única moradora sobrevivente do prédio, e o novo, Diego, engenheiro civil recém formato e neto do dono da Bonfim engenharia. A utilização de uma atriz experiente como Sônia Braga representa a história, o centro histórico de Recife, enquanto o jovial Humberto Carrão retrata o projeto Novo Recife (que dentre as aberrações provocadas pelas construtoras, impossibilitou que o centro histórico da capital pernambucana fosse considerado patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO). No mesmo viés, o edifício Aquarius interpreta o Cais José Estelita, ameaçado de demolição para o surgimento de novos prédios. Aliás, o significado de aquário é reservatório artificial de água geralmente de vidro. E o de reservatório é lugar feito ou preparado para acumular e conservar certas coisas em reserva. O que é o Novo Recife, senão a construção de aquários verticais destinados a conservar a visão privilegiada do mar a uma elite reservada da população?

O novo Aquarius, projeto para substituir o antigo prédio, assim como Diego, jovem para substituir o avô Roberval, engenheiro, são como a ponte para o futuro de Temer. “Novas embalagens para antigos interesses”, cantou certa vez Criolo. Que ao participar de uma manifestação do Ocupe Estelita compôs a música Sangue no Cais que diz, “a lama que trama a fama dos cartões postais. O drama que banca a fome desses animais. O novo pro velho Recife e seus ancestrais”. É claro o interesse da casa grande coronelista sobre o território ocupado pela senzala. Porém, Clara não é da senzala. Mas os negros de Aquarius são. E onde estão os negros do filme senão escondidos em segundo plano na cozinha ou área de serviço e em fotos sem nitidez, vestidos de branco, com rostos cortados do enquadramento e cujo os nomes são esquecidos. Nada mais sem identidade e protagonismo do que isso.

O destino urbanístico de Recife sendo decidido por homens e mulheres brancos do bairro Pina, classe média alta, enquanto os mais prejudicados não têm vez. O que é a mentalidade capitalista, empreendedora e empreiteira senão a de corroer e deixar carcomer o velho para a implantação do novo.

Assim como as músicas do disco Double Fantasy são dizeres de John Lennon ao futuro, Aquarius é a garrafa ao mar de Kléber Mendonça Filho sobre o Recife.

(Música Sangue no cais do Criolo: https://youtu.be/GQ8xl_BGSWQ)

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