Lendo o Fliaraxá

 

Foto 01Quarta-feira, 8 de outubro, foi possível ver, em meio às inúmeras casas que preenchem os quarteirões na região central da cidade, um senhor que cochilava sentado em uma cadeira ao sol no gramado do seu quintal. Araxá é um lugar onde o tráfego de carros não é morto, mas em ponto morto. O som dos automóveis é praticamente de fundo, pois o protagonismo vem dos pássaros. Os veículos parecem não possuir acelerador, pois deslizavam pelas ruas com o ímpeto de um carrinho de picolé. Entre um carro e outro, era possível ouvir o gracejar de aves e o vento a pentear as palmeiras da Praça Governador Valadares. [Ler mais …]

Realidades desnudadas. Mas sem perder a doçura.

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Antes de chegar ao Sempre um Papo com Eliane Brum, não só a visão de O Olho da Rua me acompanhava, mas uma palavra: piegas. Até formulei uma pergunta sobre como amalgamar o sentimentalismo e o detalhismo sem pender para a pieguice. Entretanto, ao ouvir e ver Eliane falar com palavras, pernas e braço (o outro se ocupava do microfone) foi possível lê-la como um desacontecimento em um acontecimento. Assim como todos nós, ao sermos apresentados e indagados a proferir as primeiras palavras, ela demonstrava timidez e receio.

Ao iniciar sua fala, suas pernas, em um primeiro momento inquietas e gangorrantes como as de uma menina, foram, com o tempo, se fixando naquele lugar, assim como as palavras que fluíam sem a interjeição pensativa “ãn” e entoavam em parágrafos. Enquanto isso, sua mão esquerda, de forma rítmica, harmonizava e pontuava a fala lenta, qual uma avó em sua melífera maneira de contar histórias aos netos. Preocupada com a atenção e o tempo de seus ouvintes, buscava os olhares por trás das fortes luzes que a atingiam no palco.

Quando contou sobre a reportagem que fez na Bolívia a respeito da doença de Chagas – na qual barbeiros (vinchucas para os bolivianos) enfestam choupanas de taipa dos camponeses na região de Narciso Campero –, Eliane se adianta na poltrona com as pernas afastadas, inclina o tronco e assume tom professoral para explicar que o enxame de hóspedes clandestinos causaram mortes por engasgamento ao se desamorcegarem sobre as pessoas adormecidas. Ao relatar essas histórias tristonhas, Eliane aparenta retornar àquele contexto, pois seus olhos, cerrados e tremeluzentes, parecem projetar aquele ambiente. [Ler mais …]