A sutilidade da violência

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Raphael Montes é um livréfilo que é fã de um cinéfilo, Quentin Tarantino. O escritor mora acompanhado de 6.500 livros do gênero policial. Em Suicidas, seu primeiro romance, é notável a influência de Cães de Aluguel não só na narrativa não-linear, na violência física, nos enclausurantes cenários de conflito dos personagens, mas, sobretudo, nos diálogos ácidos e asfixiantes.

Em Dias Perfeitos, seu segundo romance, a violência psicológica é  construída de tal forma que tende a narrativa hitchcockiana, afinal, o suspense é uma violação mental. Assim como na filmografia referencial do ídolo de Raphael, há outras referências que podem ser encontradas no romance de Téo e Clarice. Em certo momento, a obsessão macabra do casal tem cenas angustiantes e sádicas que remetem ao Anticristo de Lars Von Trier.

Em algumas entrevistas o autor disse que alguns leitores revelaram que compactuam com a conduta de Téo para ter Clarice. A mentalidade possessiva que norteia os relacionamentos é gravíssima, doentia e extremamente violenta. Além da escrita instigante, dos criativos pontos de virada e o desfecho, a maior riqueza desse romance está no espelho que ele ergue diante dos leitores e nos releva o quanto a possessão animalesca ainda sobrevive em nós.

 

A leitura é uma pintura verbal

Sem título

O que entra na sua casa e que aos poucos, diariamente, te envolve, te instiga, te aveza e depois te abandona, deixando um vazio que só pode ser suprido por outra? A história.

“O leitor é como o Sultão em Sherazade: Se você me aborrecer corto sua cabeça fora. Mas conte uma boa história e o Sultão entrega o seu coração. O Sultão é como nós. Precisamos de alguém contando histórias”.

Uma boa história se edifica no estilo, no tom e no poder das entrelinhas. É nessa ideologia que o roteiro de Dentro da Casa (Dans la Maison, 2012)foi escrito. Além disso, este filme faz parte de uma categoria que tem a capacidade de aduzir o tema do filme subentendidamente nos primeiros minutos de projeção. Com caligrafia e som de caneta percorrendo o papel os créditos iniciais prefaziam de maneira metafórica o filme. Alternando narração e diálogos, Dentro da Casa dá impressão de transformar frames em linhas, planos em parágrafos, cenas em páginas, sequências em capítulos, filme em livro. Temos a prazerosa sensação de estarmos lendo o filme como a um livro. [Ler mais …]

Melancolia

Melancholia

É notável a visceralidade e a melancolia na filmografia de Lars Von Trier. Em Melancolia ele roteirizou e dirigiu uma tradução imagética sobre a depressão.

Ex-depressivo, Von Trier personifica a doença como um planeta chamado Melancolia que se aproxima da Terra. É como se o diretor metaforiza-se a depressão como um planeta obscuro que começa a afetar a Terra e, concomitantemente, os habitantes do nosso planeta.

A depressão além de afetar o indivíduo também o faz com seus familiares, pois desconhecendo os sintomas do enfermo os parentes tendem a ojerizá-lo e desconfiar da conduta dele. Nós, extramelancólicos, achamos que é frescura, doença de preguiçoso, de rico e que uma enxada e um lote assentado por braquiária e mamoneiras resolveria a fresquidão. Se fosse esse o diagnóstico fatídico não existiria depressão em zonas rurais. Sei que isso é mentira não só por se tratar de uma doença mental, mas por conhecer a história de uma mulher nascida, criada e casada na roça que certo dia se banhou de álcool e se ateou fogo. Após alguns dias hospitalizada ela faleceu. (Não foi à primeira vez e nem a pioneira na família que tentou suicídio) [Ler mais …]