O estupro de Lucrécia

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Abalado com o estupro coletivo sofrido pela jovem carioca, resolvi procurar informações sobre o primeiro caso na história da humanidade. Não descobri, mas encontrei O estupro de Lucrécia, poema de William Shakespeare datado de 1594.

Certa noite o príncipe Tarquínio vai à casa de Lucrécia com pretextos falsos que ocultam seus motivos. Por ser amigo de Colatino, seu marido, ela o recebe. A mulher espera notícias do esposo que foi para a guerra. Enquanto Tarquínio a deseja com o olhar de anzol, ela não se fisga, pois só vê dois olhos. Eles conversam até o chegar da noite. Oportunista o príncipe pede pouso a Lucrécia.

No meio da noite, ele caminha até o quarto dela. “Há mais do que admiração naquele que admira”, escreve Shakespeare. Tarquínio chega até a cama e a mulher acorda sem saber se é sonho ou realidade. Ao perceber uma mão sobre seu peito, enquanto a outra a ameaça com uma espada, deseja que seja um pesadelo. Como quando sonhamos com coisas ruins e forçamos nosso despertar em busca de alívio. Mas era real. A culpa é do seu olhar que te entregou. A sua beleza é a armadilha que me prendeu, disse ele.

Lucrécia argumenta que um príncipe é um espelho, uma escola e um bom livro que os súditos possam ler e aprender a serem homens. Quer ser a escola que ensina a luxúria e que permite leituras dos seus atos infames, questiona ela em vão. Além da força física superior e a espada o príncipe ameaça contar a cidade que ela é uma mulher desonrada. O crime se oculta na cegueira da noite. “Geralmente somos mais tiranos onde somos invisíveis”, a periferia que o diga, William.

Lucrécia perdeu algo mais valioso que a vida. E este fugaz prazer de Tarquínio gerará grandes dores por anos. A ladra luxúria, assim como nossa sociedade, é mais pobre do que nunca. Quanto mais hierarquia, maior o escândalo. Quanto mais machismo, maiores serão os estupros. A desgraça exaltada não tem leis, nem limites. Além do mais, a cultura do estupro não basta o ato, mas disseminar a bravata.

Lucrécia, assim como a jovem carioca, se preocupa com o julgamento das pessoas. Ao que Shakespeare escreve, “Aquele que devora, nunca o devorado, merece ser culpado. Ninguém acuse a mulher que foi abusada. Esses réus culpados fazem elas escravas da própria dor. Que ninguém se revolte com a flor murcha, mas sim contra o inverno cruel que a maltratou.”

Esse trauma perpétuo sempre atormentará a jovem carioca e potencializará cada vez que ela sentir uma fragrância similar a alguma das 33 exaladas pelos perpetradores seus olhos a levarão para aquela noite. O estupro é uma cicatriz psicológica. É um crime indelével para as mulheres, mas que precisa ser visto pela sociedade como indelével para os homens que o cometem.

Lucrécia não suportou os traumas e se foi. Não se vá, jovem carioca. Seja forte. Há outras meninas e mulheres que precisam da sua força para lutarem, pois parece que existe estupro desde quando inventaram o homem. “Não deixe que seus olhos entrem em eclipse e suas bochechas tornem-se rios de dor”, escreveu Shakespeare.

(A imagem é uma pintura barroca de Peter Paul Rubens chamada The Hermitage que representa o momento que Tarquínio invade o quarto de Lucrécia)

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